Em cidades cada vez mais barulhentas, o uso de fones de ouvido se tornou parte da rotina. Eles ajudam a relaxar, a se concentrar e a criar uma bolha de conforto em meio ao caos urbano. No entanto, esse hábito aparentemente inofensivo esconde um risco pouco percebido: a chamada “surdez urbana”, quando os sons do trânsito deixam de cumprir sua função de alerta.
O trânsito não é composto apenas por imagens. Sons como buzinas, sirenes, freadas bruscas, motores e o atrito dos pneus com o asfalto funcionam como sinais de perigo. O cérebro humano reage a esses estímulos de forma automática, muitas vezes antes mesmo de a pessoa perceber conscientemente o risco. Quando esses sons são abafados pelos fones de ouvido, o tempo de reação aumenta e a chance de acidentes cresce.
Mesmo em volumes considerados moderados, os fones reduzem a percepção da direção do som, bloqueiam frequências importantes e criam uma falsa sensação de segurança. A atenção periférica diminui, e a pessoa passa a circular pelo espaço urbano desconectada do ambiente ao redor, presente fisicamente, mas ausente do ponto de vista sensorial.
Pedestres e ciclistas são os mais expostos a esse perigo. Ao atravessar ruas usando fones de ouvido, muitos confiam apenas na visão, sem perceber veículos se aproximando por trás, em curvas ou em cruzamentos. Ciclistas, especialmente em vias compartilhadas, deixam de ouvir carros, motos e ônibus, perdendo um dos principais mecanismos de antecipação de risco.
O cenário se torna ainda mais crítico com o aumento de veículos elétrificados, que produzem pouco ou nenhum ruído em baixas velocidades. Quando o veículo é silencioso e a pessoa também não consegue ouvir o ambiente, o risco de colisões e atropelamentos cresce de forma significativa.
A “surdez urbana” também reflete uma cultura que normalizou a distração no trânsito. Assim como o uso do celular, os fones de ouvido passaram a ser vistos como inofensivos, mesmo quando comprometem a atenção. Pequenas distrações, repetidas diariamente, acumulam riscos e tornam acidentes evitáveis cada vez mais frequentes.
Não se trata de abandonar a tecnologia, mas de utilizá-la com responsabilidade. Reduzir o volume, evitar o uso de fones ao atravessar vias movimentadas, optar por usar apenas um lado ou redobrar a atenção visual são atitudes simples que podem fazer a diferença.
No trânsito, ouvir é tão importante quanto ver. Sons que parecem incômodos muitas vezes são alertas de perigo e proteção. Ignorá-los pode transformar o silêncio em um risco real. Em ambientes urbanos cada vez mais complexos, atenção plena é uma forma essencial de cuidado e de preservação da vida.
