Lives e gravações ao volante: a nova infração invisível

A cena se repete com frequência nas redes sociais: motoristas fazendo transmissões ao vivo, gravando vídeos, respondendo comentários ou registrando o trajeto enquanto dirigem. O que parece apenas mais um conteúdo cotidiano esconde um risco grave e crescente. As lives e gravações ao volante se tornaram uma nova infração invisível, muitas vezes tratada com naturalidade, mas potencialmente tão perigosa quanto outras condutas já reconhecidas como imprudentes no trânsito.

Dirigir exige atenção constante, leitura rápida do ambiente e capacidade de reação imediata. Quando o motorista decide fazer uma live ou gravar um vídeo, sua atenção deixa de estar totalmente voltada para a via. Ele passa a dividir o foco entre o trânsito, a câmera, o enquadramento, a própria imagem e a interação com o público. O cérebro humano não é capaz de executar todas essas tarefas ao mesmo tempo com segurança, e cada segundo de distração pode ser decisivo.

Um dos aspectos mais perigosos desse comportamento é a falsa sensação de controle. Muitos acreditam que, por dirigirem há anos ou conhecerem bem o trajeto, conseguem gravar sem riscos. Essa confiança excessiva ignora um limite básico da condição humana: a atenção é finita. Além disso, o ambiente digital estimula a permanência no erro. Curtidas, comentários e visualizações funcionam como recompensas imediatas, incentivando o motorista a prolongar a gravação e a se distrair ainda mais.

Do ponto de vista legal, o uso do celular ao volante já é infração prevista na legislação de trânsito. Manusear o aparelho, segurar o celular ou se distrair com ele, independentemente da finalidade, compromete a condução segura do veículo. O problema é que as lives e gravações ainda são pouco percebidas como infração, tanto por quem pratica quanto por quem assiste.

O impacto desse comportamento vai além de quem está ao volante. Pedestres, ciclistas, passageiros e outros motoristas se tornam vítimas potenciais de uma decisão individual irresponsável. Um acidente causado por distração não afeta apenas quem comete a infração; ele se espalha em consequências físicas, emocionais e sociais.

Ao normalizar lives e gravações ao volante, cria-se um efeito perigoso, especialmente entre jovens motoristas, que passam a enxergar esse comportamento como aceitável ou até admirável. Assim como beber e dirigir deixou de ser tolerado socialmente, usar o celular para produzir conteúdo enquanto dirige precisa ser encarado como uma prática inaceitável.

O trânsito exige presença total. Nenhuma live é urgente, nenhum vídeo vale mais do que uma vida. Tornar visível essa infração invisível é essencial para promover uma cultura de responsabilidade, atenção e respeito no espaço público.

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