Durante muito tempo, uma ideia perigosa se espalhou pelo imaginário popular: a de que bom motorista é aquele que anda rápido, que “desenrola” o trânsito, ultrapassa com facilidade e não “atrapalha” os outros. Esse mito, repetido em conversas do dia a dia e até nas redes sociais, tem custado caro — em acidentes, feridos e vidas perdidas.
Velocidade excessiva costuma ser confundida com habilidade. No entanto, dirigir bem não é chegar antes, mas chegar com segurança. Um motorista realmente competente é aquele que respeita limites, antecipa riscos, mantém distância segura e toma decisões conscientes, mesmo quando o caminho está livre ou a pressa aperta.
A física do trânsito é implacável. Quanto maior a velocidade, menor o tempo de reação e maior a gravidade das consequências em caso de colisão. A poucos quilômetros por hora acima do limite, o impacto já se torna muito mais violento. Não existe reflexo rápido o suficiente que vença as leis da física.
Além disso, a cultura da pressa transforma o trânsito em um espaço de disputa. Aceleradas bruscas, ultrapassagens perigosas e freadas em cima da hora criam um ambiente hostil, onde o erro de um se soma à imprudência do outro. Nesse cenário, pedestres, ciclistas e motociclistas ficam ainda mais vulneráveis.
Outro aspecto pouco discutido é o exemplo social. Quando alguém corre, buzina, cola no carro da frente ou faz manobras arriscadas, passa a mensagem de que esse comportamento é aceitável. Jovens motoristas, especialmente, tendem a reproduzir o que veem, acreditando que rapidez é sinônimo de domínio do volante.
A realidade mostra o oposto. Os motoristas mais seguros são, quase sempre, os mais previsíveis. Eles sinalizam, mantêm velocidade constante, respeitam faixas e entendem que o trânsito é um espaço coletivo, não uma pista de competição. Previsibilidade salva vidas.
Desconstruir o mito do “bom motorista é o que corre” é um passo essencial para reduzir acidentes. A pressa pode até dar a ilusão de ganho de tempo, mas um acidente gera atraso, dor e consequências irreversíveis. Nenhum compromisso é mais importante do que a vida.
No trânsito, excelência não está na velocidade, mas no cuidado. Dirigir bem é respeitar limites, pessoas e o tempo da própria vida.
